Recuperação Econômica

A crise e as perspectivas de recuperação no Brasil e no Mundo



1. Impactos econômicos da covid-19 

2. Recuperação em V, W ou U 

3. Recuperação econômica mundial pós-pandemia 

4. Perspectivas para o Brasil






1/  IMPACTOS ECONÔMICOS DA COVID-19


O começo de 2020 foi marcado pela disseminação global do coronavírus. Primeiro na China, ainda em dezembro de 2019, depois na Itália e França, e logo o vírus alcançou virtualmente o mundo inteiro. Como medida de combate, os governos restringiram a circulação de pessoas (os chamados lockdowns) que, por um lado, retardaram o crescimento da doença, mas, por outro, causaram graves danos à economia global em especial aos setores de varejo e turismo.


No Brasil, os impactos da doença começaram a ser sentidos apenas em março, com o PIB brasileiro recuando 0,3% nos três primeiros meses de 2020 em relação ao primeiro trimestre de 2019, havendo uma expectativa de impactos ainda mais severos nesse segundo trimestre. Ressalta-se, ainda, que a retração enfrentada interrompeu uma trajetória de 3 anos de lenta recuperação econômica, trajetória essa que ainda nos deixava distante do patamar anterior ao início da recessão de 2014-2016.




Fonte: G1 | Com pandemia, PIB do Brasil encolhe 1,5% no 1º trimestre e regride ao patamar de 2012



Fonte: G1 | Desempenho do PIB do Brasil no 1º tri fica em 23º em ranking com 44 países



De acordo com o IBGE, o setor mais impactado foi o de serviços, que representa 74% do PIB brasileiro e apresentou queda de 1,6%. Foi a maior queda desde o quarto tri de 2008 (-2,3%) quando a quebra do Lehman Brothers e uma enorme crise bancária praticamente paralisou a economia global.




Fonte: G1 | Com pandemia, PIB do Brasil encolhe 1,5% no 1º trimestre e regride ao patamar de 2012



Se considerarmos o mês de abril, primeiro mês 100% afetado pelo coronavírus, o setor de serviços recuou 11,7% na comparação com o mês anterior, o pior registro desde o início da série histórica em 2011. De acordo com Luana Miranda, pesquisadora FGV Ibre, os serviços prestados às famílias correspondem a 24% do PIB do país e já registram uma perda acumulada de 61,6% durante a pandemia. 

O setor de alojamento e alimentação também está com forte perda acumulada, totalizando 64,6%. O presidente da Associação Nacional de Restaurantes, Cristiano Melles, diz que a situação piorou depois de abril e que a estimativa é de que 22% dos estabelecimentos (cerca de 200 mil locais) não devem reabrir as portas, resultando também na perda de aproximadamente 1 milhão de empregos.

Outro setor em forte queda é o de transporte aéreo, com uma perda acumulada de 80,9%. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas, Eduardo Sanovicz, abril foi o pior mês da história da aviação com uma queda de 2,6 mil voos diários para 180. Mas a expectativa é de melhoria nesse setor com o mês de maio apresentando uma média de 262 voos diários, junho com 353 e uma estimativa para 500 em julho.



VARIAÇÃO DO SETOR DE SERVIÇOS NO BRASIL



ACUMULADO DE PERDAS DOS SETORES DE SERVIÇOS DURANTE A PANDEMIA

Fonte: Folha de São Paulo | Economistas veem Brasil em depressão econômica e projetam recuperação lenta



Segundo dados do Ministério da Economia, desde a segunda quinzena de março, quando a economia brasileira começou a sentir os primeiros impactos, até maio, o número de pedidos de seguro desemprego atingiu 1,94 milhões, um crescimento de 26% quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Se analisarmos apenas o mês de maio, foram registrados 960,2 mil pedidos de seguro desemprego, 53% maior que o mesmo mês de 2019. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, a economia brasileira fechou 1,1 milhão de vagas de trabalho com carteira assinada entre os meses de março e abril. O mês de abril foi o que mais se destacou com 860,5 mil postos fechados, maior demissão registrada em um único mês em 29 anos.


Fonte: G1 | Seguro-desemprego: país tem 960 mil pedidos em maio; total durante pandemia vai a 1,9 milhão



Além disso, o índice de deflação no país preocupa os economistas. A menor pressão dos preços dos alimentos e o recuo nos combustíveis fez com que o índice de deflação no país reduzisse 0,38% em maio, resultado mais baixo para o mês desde que a inflação começou a ser calculada em 1980.


DEFLAÇÃO NO BRASIL


Fonte: Folha de São Paulo | Economistas veem Brasil em depressão econômica e projetam recuperação lenta



2 /  RECUPERAÇÃO EM V, W OU U


Há alguns termos usados para explicar a retomada financeira de um país logo após uma recessão econômica. Desde o início da pandemia, muito se fala sobre a recuperação em V, mas outros cenários também são considerados pelos economistas, como a recuperação em U ou em W. O indicador que é acompanhado para a retomada geralmente é o PIB do país, que é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por uma nação e serve para mensurar o ritmo da atividade econômica em um dado local. 

A retomada em V caracteriza uma recuperação rápida aos patamares pré-crise, se trata de um dos cenários mais otimistas. Uma recuperação desse tipo seria possível caso fosse encontrada uma cura ou vacina para a covid-19, por exemplo.

Já a recuperação em U é mais lenta, se caracteriza por uma queda acentuada, seguida de um período de estagnação e posterior retomada. Essa situação é a que muitos economistas acreditam para o mundo pós-pandemia, já que muito do que foi perdido de produção nos tempos de confinamento não pode ser recuperado de forma rápida. As pessoas que não viajaram no período, por exemplo, não devem ter uma demanda acumulada que irá ser toda consumida logo no retorno. 

O cenário de recuperação em W ilustra a situação de idas e voltas do problema, tendo como exemplo o temor por uma segunda ou terceira onda de infecções em massa.


Fonte: BBC | Crise e coronavírus: V, U ou W, os 3 cenários possíveis para a recuperação econômica após a pandemia de covid-19



3/  RECUPERAÇÃO ECONÔMICA MUNDIAL PÓS PANDEMIA


Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), se o coronavírus continuar sob controle da maioria dos países do mundo, a economia mundial deve sofrer uma queda de 6% no ano, que poderia chegar a 7,6% com uma segunda onda de contágio. A expectativa é que em 2021 a economia dos países volte a patamares positivos, com 2,8% de crescimento, mesmo que contando com efeitos prolongados da crise. A organização também prevê que a recuperação será desigual nos países. Economias emergentes, como Brasil, Rússia e África do Sul devem sofrer bastante por terem seus sistemas de saúde mais pressionados e uma queda de preços nas commodities. É importante registrar que apesar de haver um esforço relevante em realizar estas previsões, a verdade é que há uma enorme incerteza nos números acima.

Segundo a Bloomberg, quase todos os países acompanhados registraram retomada em maio, em comparação com os meses de março e abril. Alemanha, Japão e França estão entre os que mais recuperaram, em posição contrária a Espanha e Reino Unido, que seguem a retomada a passos mais lentos.

O gráfico abaixo ilustra o início da recuperação da indústria ao redor do mundo no mês de maio.


Fonte: Bloomberg | The 12 Global Economic Indicators to Watch



-  CHINA

Na China, o primeiro país a superar a quarentena, a economia está se recuperando lentamente. Depois da queda de 6,8% do PIB no primeiro trimestre alguns dados do mês de maio sinalizaram a retomada: A produção de aço do país atingiu níveis recordes e a produção industrial aumentou 4,4% em comparação com o mesmo mês de 2019. A demanda por petróleo no país já atingiu cerca de 90% dos patamares anteriores à pandemia, e como o país é o segundo maior consumidor do mundo, seu retorno ajudou a estabilizar os preços do petróleo em torno de 40 dólares, ainda bem abaixo dos patamares pré-crise. Para a retomada, muito dinheiro está sendo injetado na economia. Dados do PBoC (Banco Popular da China, com sua sigla em inglês), o BC chinês, mostram que em março os bancos chineses concederam 2,85 trilhões de yuans em crédito, cerca do triplo do valor de fevereiro, que foi de 905,7 bilhões.

A recuperação da indústria chinesa pode ser vista no gráfico abaixo. O PMI (Purchasing Managers Index ou, em português, Índice de Mercado dos Gerentes de Compra) é um indicador de difusão da produção. Um resultado acima de 50 pontos significa crescimento em relação ao mês anterior. Abaixo de 50, redução.



PMI CHINA


Fonte: Bloomberg | The 12 Global Economic Indicators to Watch



Cerca de 6 semanas depois da reabertura da economia chinesa apenas 40% dos pequenos negócios do país tinham voltado ao funcionamento. Apesar disso, o varejo, que ainda está no negativo, apresenta melhora em comparação a abril. A queda em maio é de 2,8% em relação ao ano anterior, enquanto em abril esse número foi de 7,5%. 

No início do ano a expectativa era de que a retomada da China, o primeiro país a conseguir controlar a pandemia e assim reduzir o lockdown, fosse rápida, desenhando a curva em V, entretanto a retomada não está sendo tão rápida quanto as previsões. A demanda por produtos chineses ao redor do mundo ainda não voltou aos patamares pré-crise, já que diversos países ainda mantêm variadas formas de lockdown reduzindo o consumo discricionário. 



-  EUROPA E EUA


No final de maio, a Comissão Europeia aprovou um plano de recuperação econômica de 750 bilhões de euros para ajudar as economias mais afetadas pela crise. Na última semana, os líderes da União Europeia (UE) se reuniram para discutir a proposta e o orçamento da UE para os anos de 2021 à 2027. O grupo de líderes se divide em diversas opiniões de como deve ser executado o plano, tendo países em situações melhores e piores. O medo de alguns é uma “união de dívidas” que possa piorar a situação dos países que não foram tão prejudicados na crise. As decisões foram adiadas para julho, quando ocorrerá um encontro presencial para a discussão. As medidas de distanciamento social vêm sendo flexibilizadas na Europa desde maio, com fronteiras sendo reabertas aos poucos pelos países na tentativa de aproveitar o verão para a retomada do turismo. Estima-se que esta indústria chega a perder 1 trilhão de euros por mês com restrições de confinamento. A Itália, um dos países mais afetados e o primeiro país europeu a sofrer com o Covid, já reabriu suas fronteiras aos demais países da UE, assim como restaurantes e bares voltaram a funcionar. Madri e Barcelona, as cidades espanholas mais afetadas pela pandemia, também reabriram seu comércio e demais serviços. Já no EUA, alguns setores da economia começaram a registrar uma pequena melhora nos seus índices em maio, logo após a retomada das atividades. Companhias aéreas, restaurantes, transportes de carga e mercado imobiliário foram os setores com dados positivos. O Departamento de Comércio americano mostra alta na venda de imóveis em 1% nas últimas semanas, porém muito melhor do que os 20% de queda prevista anteriormente.  O desemprego, que atingiu os piores patamares da história no país, apresentou uma melhora importante em maio, saindo de 14,7% em abril para 13,3%, com o ganho de 2,5 milhões de novos empregos.


EVOLUÇÃO DO DESEMPREGO NOS EUA


Fonte: The New York Times | Unexpected Drop in U.S. Unemployment Helps Markets Rally



O Índice Dow Jones, baseado nas 30 maiores empresas dos EUA, ilustrado abaixo, mostra recuperações a partir de abril, porém ainda longe dos patamares pré-pandemia.


EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DOW JONES



Fontes:

El País | OCDE prevê recuperação lenta e desigual da economia mundial depois da crise do coronavírus

Money Times |  Economia global mostra primeiros sinais de recuperação

Uol | Lenta retomada da China indica rota difícil para economia global

Negócios | "Até com reabertura, recuperação da China é muito lenta", diz consultor

Reuters | China drives global oil demand recovery out of coronavirus collapse

Folha de São Paulo | EUA mostram sinais de melhora na economia mas vivem risco de nova onda do coronavírus

Uol | Enquanto europeus retomam vida social, países das Américas seguem meio a incertezas

G1 | Líderes da União Europeia dizem não estar prontos para assinar um plano de recuperação

El País | Bruxelas aprova o maior plano de recuperação da história da União Europeia: 750 bilhões de euros


4 / PERSPECTIVAS PARA O BRASIL


A recuperação econômica brasileira será mais lenta do que a média global de acordo com as estimativas divulgadas pelo Banco Mundial. Segundo esta entidade, o PIB brasileiro deve recuar 8% em 2020 e crescer 2,2% em 2021, comparáveis a uma estimativa para a média mundial de 5,2% de retração em 2020 e crescimento de 4,2% em 2021. Já o FMI prevê um recuo de 9,1% para o PIB brasileiro no ano.

A crise afeta mais os países onde a pandemia foi mais grave, onde há forte dependência do comércio global, do turismo, da exportação de produtos primários e de financiamento externo, caso esse no qual o Brasil se enquadra, afirma o Banco Mundial. 


Segundo Marcel Balassiano, pesquisador do FGV Ibre, o Brasil ficará na posição 171 entre 192 países em um ranking dos países que melhor atravessarão a crise. Dentre os países sul-americanos, apenas a Venezuela terá um resultado pior. “O Brasil vive uma crise de saúde e uma crise política ao mesmo tempo, isso não tem paralelo internacional.[...]” diz Balassiano. Mesmo antes da pandemia, o Brasil estava atrás da maior parte do mundo, crescendo na casa de 1% desde 2017, após duas quedas seguidas de mais de 3%. Segundo o FMI, 7 em cada 10 países cresceram mais do que o Brasil no ano passado.


Após um ciclo de medidas emergenciais para contenção da crise criada pelo coronavírus, a equipe econômica do governo está preparando uma nova fase de planejamento que contará com a melhoria do ambiente de negócios e reformas estruturais. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, um dos pontos da agenda é retirar, simplificar ou reduzir obrigações regulatórias para deixar o país mais atrativo e facilitar a retomada para empresários e investidores. Além dessa desregulamentação, o governo vai centrar esforços em mudanças como saneamento, setor elétrico, ferrovias, novo mercado de gás e independência do Banco Central. 


Com a aproximação entre o Palácio do Planalto e o Centrão, muitas dessas propostas, que estavam travadas no Congresso Nacional, estão com maiores expectativas de aprovação. Os gastos para combater os impactos do novo coronavírus levarão a dívida pública à beira de 100% do PIB, nível muito elevado para um país emergente. Apesar dos detalhes ainda não estarem fechados pela equipe do ministro Paulo Guedes, há um consenso de que a adoção de uma nova fase de medidas é essencial para a recuperação da atividade econômica. 


No âmbito social, uma “política social agressiva” para o pós-pandemia aliada a um incentivo às contratações de trabalhadores registrados estão na pauta de 2020. O Renda Brasil, programa que sucederá o Bolsa Família, ampliará a rede de assistência social com a população “invisível” aos olhos do governo e que surgiu com o cadastro do auxílio emergencial de R$600. Além disso a equipe econômica prepara uma desoneração da folha de salários com o intuito de incentivar a formalização de trabalhadores e medidas de simplificação tributária também devem ser prioridade.


Fontes:

Folha de São Paulo | Economia brasileira deve encolher 8% em 2020 e terá recuperação fraca, projeta Banco Mundial

Estadão | Condução oscilante no combate ao coronavirus deve afetar recuperação econômica

Uol | Retomada do Brasil no pós-pandemia deve ser mais lenta que em 90% dos países

Estadão | Após ciclo de medidas emergenciais equipe econômica prepara agenda de retomada