PIX e Open Banking: Como essas iniciativas podem gerar um impacto disruptivo no setor financeiro?



  1. O que são PIX e Open Banking?

  2. Quais os impactos das iniciativas

  3. Posicionamento estratégico dos grandes bancos







1 / O que são PIX e Open Banking?


- PIX


Com o objetivo de aumentar a eficiência e a competitividade do mercado de pagamentos de varejo no Brasil, o BC desenvolveu um novo meio de pagamento que ajudará no processo de digitalização do mercado brasileiro, chamado de PIX.


A nova modalidade permitirá a transferência instantânea de recursos e estará disponível 24/7, representando um grande avanço com relação a modalidades como DOC e TED. A iniciação de pagamentos se dará através de três formas: chaves únicas dos usuários (como telefone ou CPF), QR Codes (que podem ser estáticos ou dinâmicos) ou via tecnologias NFC (pagamento por aproximação).


Uma grande diferenciação do PIX será o seu baixo custo por transação, além da interoperabilidade entre diferentes bancos, o que significa que a experiência do pagador e do recebedor independerão de serem usuários de uma mesma instituição financeira.


Mas então é só um TED melhorado? Para a população em geral isso descreve bem a funcionalidade, mas para o setor de pagamentos, esse novo arranjo de pagamentos pode ter um impacto disruptivo, impactando empresas estabelecidas e possibilitando novos modelos de negócio.



- Open Banking


O Open Banking é uma tendência global do mercado financeiro e visa o compartilhamento de dados bancários mediante a aprovação do cliente, ou seja, é a transição de um modelo no qual os bancos são os donos dos dados gerados para outro no qual esses dados pertencem ao usuário. O modelo mais adotado, até o momento, envolve o uso de APIs para o compartilhamento seguro dessas informações entre diferentes instituições do setor financeiro, se assim desejar o cliente.



A motivação por trás dessa tendência é facilitar a oferta de serviços inovadores e melhores condições aos clientes finais, em decorrência de um aumento na competitividade no setor.


O início do Open Banking pode ser associado à revisão da regulação dos serviços de pagamento da União Europeia em 2015, que ficou conhecido como PSD2 (Payment Services Directive 2) e estabeleceu novas regras que promoviam a abertura dos dados bancários. O movimento ganhou mais força no Reino Unido onde, em 2016, os nove maiores bancos foram obrigados a permitir o acesso dos dados de clientes por outras empresas, chegando ao nível de cada compra e transação da conta.



Figura 1 - Estágio de Maturidade do Open Banking por país (fonte: The Paypers - Open Banking Report 2019)

No Brasil a regulamentação do Open Banking está inserida no contexto da agenda do Banco Central BC#, que busca a queda no custo do crédito, a modernização da lei e a eficiência no sistema, mirando a inclusão, a competitividade e a transparência. A regulamentação entra em vigor no final desse ano e está prevista para ocorrer em quatro fases, com término previsto para o final de 2021. Nessa mesma agenda consta a implementação do PIX.


2 / Quais os impactos das iniciativas


- Impactos do PIX

O primeiro impacto esperado será a substituição das transferência DOC e TED entre pessoas físicas. Apesar de não haver uma regulamentação sobre a cobrança de tarifas por parte de bancos e demais agentes, o BC estabeleceu o custo base de 1 centavo a cada 10 transações de forma a remunerar as entidades da cadeia, esta taxa é paga pela instituição financeira do recebedor.


E também, a instantaneidade e a facilidade de fazer transferências a partir da agenda do seu celular ao invés dos dados da conta bancária, levam a crer que essa substituição será adotada rapidamente. Além disso, os bancos serão obrigados a dar a mesma relevância das transferências convencionais para o PIX em seus apps.

Outro impacto que deve ser observado é a mudança nos hábitos de pagamentos entre pessoas e estabelecimentos comerciais. A simplicidade do arranjo em comparação com o de cartão de crédito, que envolve banco emissor, adquirente e bandeira, e seu baixo custo de operação, colocarão uma grande pressão para redução de custos do modelo atual.


Figura 2 - Fluxo de processos em um pagamento via cartão

Figura 3 - Arranjo do funcionamento do PIX

Para organizações fora do setor bancário, como as de varejo, a maior oportunidade está em reduzir o custo das transações em seus negócios, especialmente aqueles vinculados a pagamentos em cartão de crédito, como é o caso do e-commerce. Outra possibilidade discutida para o varejo físico é a opção de oferecer saques em espécie, gerando uma nova fonte de receita, além de baratear a gestão das cédulas.


Outro objetivo do BC com o PIX é possibilitar e encorajar novos modelos de negócio a partir do uso dessa plataforma. De partida, as e-wallets devem ganhar força, mas é esperado que surjam novos negócios como o de concessão de microcrédito, parcelamento e outros serviços associados ao pagamento, o que nos leva de volta à discussão sobre os impactos da adoção no Open Banking.


- Impactos do Open Banking


Para entender os possíveis impactos que podem emergir das novas regulações, podemos olhar para ambientes que já estão alguns passos à frente, como é o caso do Reino Unido, onde já é possível ver as primeiras aplicações das APIs abertas, os benefícios que se materializaram e o que ainda pode estar distante.


A fintech Revolut lançou um serviço de agregação de contas que permite usuários gerirem melhor suas finanças de maneira consolidada. Além disso, planeja desenvolver funcionalidades de movimentação dessas contas, embora ainda não seja um modelo monetizado. O objetivo neste momento é ser o canal de preferência dos usuários do serviço da fintech para lidar com suas finanças, em detrimento aos canais de bancos convencionais. Seguindo essa tendência grandes bancos, como o Barclays, desenvolveram a mesma funcionalidade em seus apps, permitindo a visualização de contas de bancos concorrentes em seus próprios canais


Já o HSBC afirma que com o Open Banking já está sendo possível ofertar crédito para clientes que, apesar de serem bons pagadores, por indisponibilidade de dados, ficavam fora do alcance do banco.


Outro movimento que vem sendo observado é o de parcerias entre fintechs e grandes instituições. Um exemplo é o da empresa alemã Finanzguru que, em parceria com o Deutsche Bank, desenvolveu uma solução de gestão de contratos que identifica pagamentos recorrentes de serviços, como de telefonia e academia. E, com base nessas informações, a empresa gera ofertas de serviços concorrentes e substitutos, mostrando que o impacto do Open Banking pode ir além do setor financeiro.


Apesar de já vermos algumas movimentações no setor, é importante notar que muitas das promessas do Open Banking para o consumidor final ainda não se concretizaram. A reticência na liberação de dados além do mínimo obrigatório, a lenta adoção pelo grande público e os riscos associados à privacidade de dados fazem com que o cenário adiante ainda seja de grandes incertezas. Com a regulação brasileira se aproximando, é o momento dos grandes bancos definirem como se adequarão a esse cenário.



3 / Posicionamento estratégico dos grandes bancos


Com a aproximação do Open Banking no país, os bancos tradicionais se veem em um momento de importantes definições estratégicas com relação a abordagem que adotarão frente a essa mudança.


Há duas importantes perguntas que os grandes bancos precisarão responder, e ambas estão relacionados ao nível de engajamento que eles terão frente a jornada do Open Banking, são elas:

  • Qual o nível de abertura que darei em meus canais internos para produtos de terceiros?

  • Qual o nível de disponibilização que darei aos meus produtos em canais externos?


Através do cruzamento dessas duas dimensões, é possível mapear as principais opções de posicionamentos estratégicos dos grandes bancos, conforme apresentado no framework a seguir.


É importante notar que os quatro direcionamentos estratégicos descritos abaixo não são mutuamente excludentes, ou seja, uma combinação entre eles pode ser o caminho a ser adotado por algumas instituições.



Tabela 1 - Framework de posicionamento estratégico para grandes bancos


Levantamos os principais pontos positivos e riscos associados a cada um dos posicionamentos apontados, sendo importante ressaltar que a decisão mais adequada depende das características específicas de cada instituição, sua base de clientes e seus direcionamentos estratégicos para o longo prazo.



Tabela 2 - Benefícios e Riscos de cada opção


Links interessantes:


Apresentação do Banco Central sobre plano de implementação do Open Banking no país

- BCB | Open Banking


Efeitos do Open Banking no Reino Unido

- Computer World | Open banking one year on: where are we?


Página oficial do PIX

- BCB | Banco Central do Brasil

- BCB | New regulation on open banking in Brazil


Vídeo: PIX e os impactos no sistema financeiro

YouTube | PIX e os impactos no sistema financeiro | com Carlos Netto