Como fica a sharing economy em mundo pós-pandemia?


  1. Sharing Economy: o que é e como surgiu?

  2. Economia tradicional x Economia compartilhada

  3. Cases

  4. A economia compartilhada será impactada em um mundo pós-pandemia?





1 / Sharing Economy: o que é e como surgiu?


O conceito surgiu na crise mundial de 2008, quando a redução do poder de compra fez os consumidores passarem a buscar alternativas para a redução de custos e o compartilhamento foi uma das saídas encontradas. A economia compartilhada é um conceito que está indo no sentido oposto ao consumo desenfreado, onde o consumidor não adquire a posse dos bens, mas sim o seu acesso ou uso. Dessa forma, bens que geralmente ficariam parados, como um carro ou um quarto vazio podem ser alugados e compartilhados como serviços. Sua essência é pautada principalmente em transações P2P, de pessoa para pessoa, e por essa razão ela geralmente envolve o uso de plataformas online para conectar o vendedor ao consumidor.


São consideradas empresas de economia compartilhada, negócios cujo core business possibilita e promove o acesso a bens subutilizados ou serviços, beneficiando os consumidores, principalmente com redução de custo. Elas também devem ser construídas em redes descentralizadas e marketplaces.


Segundo a especialista Rachel Botsman, existem 3 modelos para a economia compartilhada, são eles: mercados de redistribuição, lifestyle colaborativos e sistemas de produtos e serviços. O mercado de redistribuição é baseado no princípio “reduza, re-use, recicle, repare e redistribua”, um exemplo desse tipo de negócio é a plataforma Enjoei onde há a troca ou venda de produtos usados que estão ociosos. Já o lifestyle colaborativo tem como objetivo o compartilhamento de bens, serviços, espaços e até mesmo de tempo entre pessoas, um exemplo são os escritórios de coworking como a WeWork. O terceiro, sistema de acesso a produtos e serviços baseia-se em empresas que cobram para o usuário ter acesso ao invés da posse. Um exemplo desse estilo de negócio é o Airbnb, no qual o usuário consegue alugar um quarto ou uma casa exposta na plataforma.


Juntamente com o conceito de sharing economy muito se fala também sobre a gig economy, economia de freelancers ou sob demanda. Ela se caracteriza pela prestação de trabalhos temporários e de curto prazo através de profissionais autônomos, que diferente dos CLTs, não possuem benefícios ou vínculo empregatício. Essa modalidade ficou mais comum devido à demanda que muitas das empresas de economia compartilhada geram, é o caso dos entregadores e motoristas das plataformas como Uber e Ifood.


Fontes:

- Investopedia| Sharing Economy Definition

- Consumo Colaborativo| Entendendo o conceito: o que é economia compartilhada?

- SBCoaching | Economia Compartilhada: O que é, Para que Serve e Exemplos

- Ohio State News| In the sharing economy, consumers see themselves as helpers


2 / Economia tradicional x Economia compartilhada


Um ótimo jeito das empresas tradicionais se adaptarem à economia compartilhada é compartilhando os ativos que possuem criando novos modelos de negócio. Um exemplo de novo negócio aconteceu na Suíça, diante da queda do preço do leite no final da década de 90 diversos fazendeiros tiveram suas receitas reduzidas, como alternativa para retomar a receita um desses fazendeiros resolveu começar a fazer o leasing de suas vacas. Os clientes podem alugar um animal durante uma temporada e nesse período podem visitá-la, acompanhá-la nas atividades diárias e também possuem um desconto para a compra dos insumos gerados, como leite e queijo. Um exemplo semelhante é seguido pela Hilti, a empresa disponibiliza o aluguel, gerenciamento e reparo de ferramentas para a construção civil tudo com um valor fixo mensal. Assim, as ferramentas podem ser alugadas por um período e depois seguem para um novo cliente, e sempre que necessário os clientes podem renovar ou trocar de ferramentas sem custos adicionais.


A aquisição de novas empresas também pode ser um caminho para trazer os benefícios da economia compartilhada para dentro da organização. Em 2018, o Grupo GPA comprou o James delivery, app com o foco em entregas de alimentos. Atualmente o serviço está disponível em 134 lojas do grupo. Além disso, uma parceria com a Rede Raia Drogasil(RD) em 2019 garantiu a expansão dos serviços do James Delivery, acessando aos 55 milhões de clientes dos programas de fidelidade das duas empresas, GPA e RD. Hoje o app tem o conceito de super app, incluindo entregas de fast food, lojas de conveniência entre outros.


Fonte:

- Experience HSM | Empresas se adaptam à economia colaborativa


3 / Cases


São diversas as empresas de sharing economy conhecidas e usadas no dia a dia, Uber, Airbnb, Gympass, Yellow entre outras, passaram a fazer parte do cotidiano da população ao redor do mundo.


a) Transporte


No setor de transporte, exemplos de empresas com modelo de economia compartilhada são: Uber, 99Táxi, Cabify, Yellow, Blablacar, entre outros.


A Uber nasceu inicialmente como um aplicativo que oferecia motoristas particulares em carros de luxo. Porém, percebendo que o aplicativo atingia apenas pessoas com alto poder aquisitivo devido ao custo elevado, cerca de 1,5 vezes maior que um táxi, os fundadores mudaram a direção da empresa, barateando o custo final aos passageiros e tornando seu serviço mais acessível. O aplicativo chegou ao Brasil em 2014 e hoje o país está entre os que mais geram receita para a Uber.


Em 2018, a empresa expandiu para novas modalidades de economia compartilhada comprando a startup de aluguel de bicicletas elétricas Jump e liderando uma rodada de investimentos de US$335 milhões na startup de patinetes Lime. Em 2020, a Uber anunciou a fusão da Jump com a Lime e as operações de patinetes elétricos da Uber no Brasil, que estavam suspensas desde o início da pandemia, foram descontinuadas.

O mercado de compartilhamento de patinetes elétricos, diferente de serviços como Uber que “emprestam” dos motoristas a frota de carros, tem que arcar com todo o custo de operação dos patinetes, o que torna a lucratividade muito mais difícil. Em dezembro de 2019, John Paz, diretor da Lime no Brasil, disse que apesar da empresa crescer 20% ao mês, ela era deficitária no país. Após apenas 6 meses de operação, a Lime encerrou as atividades no Brasil.


Enquanto isso a startup de bicicletas e patinetes Grow, dona das marcas Grin e Yellow, também sofreu com falta de capital nesse mercado, encerrando operações em 14 cidades do Brasil e sendo adquirida pelo fundo Mountain Nazca no início de 2020. Com a aquisição, a startup passou para um novo modelo de aluguel mensal individual de patinetes e bicicletas, deixando de ser um equipamento compartilhado com outras pessoas. Nesse formato, o usuário recebe em casa um kit com os equipamentos após o pagamento no app da Grin e manutenções podem ser solicitadas no próprio aplicativo.

Devido a pandemia, a Uber demitiu 3,7 mil funcionários, cerca de 17% de seu time de trabalho e teve queda de 67% na receita de mobilidade, em contrapartida, teve aumento da receita com o Uber Eats chegando a 103%. De abril a junho a receita da companhia ficou em 2,24 bilhões, queda de 29% na comparação anual com 2019. Já a Grow demitiu metade de sua equipe no Brasil em junho de 2020.



Fontes:

- Estadão | Startup de patinetes Grow confirma compra por fundo latino Mountain Nazca

- Estadão | Em reconstrução, Grin lança plano mensal de aluguel individual de patinetes e bicicletas

- Estadão | Startup de patinetes Grow demite metade dos funcionários no Brasil

- Estadão | Gigante dos patinetes, Lime encerra operação no Brasil após seis meses

- Estadão | Uber encerra operação de patinetes no Brasil - Link - Estadão

- Estadão | 25 fatos sobre a história do Uber

- Valor | Prejuízo do Uber recua 66% no segundo trimestre | Empresas

- Tudo Tecnologia | Conheça a história do Uber, 99 e Cabify; aplicativos de "Táxi"

- Tecmundo | Uber


b) Hospedagem e Turismo


No setor de hospedagem, Couchsurfing e Airbnb podem ser citados como exemplos de compartilhamento e consumo colaborativo. O Couchsurfing surgiu em 2004 como uma plataforma online onde pessoas do mundo inteiro abrem suas casas para visitantes se acomodarem de forma gratuita, chegando a atingir um marco de 14 milhões de membros. O Airbnb oferece um serviço semelhante, operando por meio de perfis online, o proprietário oferece hospedagem de um imóvel inteiro ou compartilha o mesmo espaço de convivência com o hóspede. Mas, diferente do Couchsurfing, é necessário pagar pela estadia, valor esse frequentemente mais barato quando comparado com um hotel.


Essa forma de turismo alternativo se destacou e ganhou escala não só pelos baixos custos para seus usuários, mas também por oferecer uma experiência personalizada, a oportunidade de viver o dia a dia de diferentes culturas e, no caso do Airbnb, até estadias em lugares inusitados como castelos, casas na árvore, iglus, entre outros. Em 2011, 40% de todas as chegadas de hóspedes eram nas 10 maiores cidades da plataforma Airbnb, em 2019, cerca de 92% de todas as chegadas ocorreram fora das 10 maiores cidades, o que mostra uma grande expansão da rede. Ao todo, foram mais de meio bilhão de acomodações do Airbnb desde o início de sua operação.




Fonte: O Surgimento de um Novo Padrão de Pertencimento com a nossa Maior Noite



Devido a pandemia, o Airbnb reduziu drasticamente o seu time, foram cerca de 1,9 mil funcionários, 25% do total. A necessidade de isolamento social fez com que a demanda por viagens e locações em cidades turísticas reduzisse drasticamente. O presidente da empresa, Bryan Chesky, anunciou uma mudança estratégica, o Airbnb passará a focar também em reservas para períodos de longo prazo, para viajantes, trabalhadores e estudantes. No Brasil em março de 2020, a quantidade desse tipo de reserva mais longa, acima de 28 dias, subiu 28% em relação ao ano anterior, influenciada por pessoas buscando locais para passar o período de home office longe de aglomerações e de familiares do grupo de risco. No mesmo período, a empresa levantou 1 bilhão de dólares em uma rodada com empresas de Venture Capital, o dinheiro deve ajudar os principais anfitriões da plataforma, donos das residências com aluguéis mais frequentes, e também ajudar o caixa da empresa. Além disso, a plataforma registrou dia 8 de julho, mais de 1 milhão de reservas em todo o mundo, marca essa atingida pela primeira vez desde o dia 3 de março, o que representa para a empresa uma possível recuperação em reservas de curta temporada.


Fontes:

- News Airbnb | O Surgimento de um Novo Padrão de Pertencimento com a nossa Maior Noite

- Canal Tech | Airbnb: a história da startup que, hoje, vale 1 bilhão de dólares

- Revistas USP | Vista do Comportamento do Consumidor na Economia Compartilhada no Turismo

- Valor | Reservas no Airbnb despencam com epidemia de coronavírus

- Infomoney | Airbnb registra mais de 1 milhão de reservas pela primeira vez desde março


c) Outros Setores


A economia compartilhada está se expandindo e disruptando uma diversidade cada vez maior de setores como moda, tecnologia, animais de estimação, entre muitos outros. A startup FindUp por exemplo, fundada em 2015, diz ser a maior rede de técnicos de informática da América Latina. Ela se baseou nos conceitos de economia compartilhada, criando uma plataforma que conecta técnicos de informática, especializados na manutenção e conserto de computadores, com o mercado corporativo, como o Cinemark, Santander, Azul, Centauro, dentre outros. A empresa possui planos para atingir também micro e pequenas empresas além de clientes residenciais no futuro. Além disso, conseguiu aporte de 5 milhões de reais na semana do dia 07/08/2020 liderado pelo fundo de capital de risco brasileiro Domo Invest para ampliar os negócios da empresa que já possui mais de 10 mil técnicos atuando em 800 cidades do país.


Já a ClosetBoBags tem um modelo de negócio pautado no aluguel e venda de bolsas, roupas e acessórios de luxo, incluindo marcas consagradas como Chanel, Gucci, Balmain, Hermès, Off-White e Prada. “Quem tem peças que não usa, pode gerar renda alugando-as, recebendo 60% do valor. Ao mesmo tempo, a plataforma possibilita o acesso a produtos de luxo por quem não teria como adquiri-los naquele momento. Também queremos ser uma ferramenta para grifes tradicionais, que podem testar uma peça-piloto antes de produzi-la em larga escala” diz Isabel Braga, empreendedora e idealizadora do negócio. Com a crise do covid-19, o mercado de moda foi impactado e a ClosetBoBags começou novas iniciativas como aplicação de realidade aumentada para melhorar a experiência do usuário, fechou novas parcerias com marcas de roupas e abriu a plataforma para pequenas marcas que ainda não estavam comercializando via e-commerce.




Fontes:


- Exame| Startup de "delivery" de técnicos de informática recebe aporte milionário

- O Globo| Lançada como plataforma de aluguel bolsas, a BoBags amplia e investe em roupas grifadas

- Valor Investe | Empreendedoras de moda veem dificuldade em se desvencilhar de pré-conceitos para gerir seus negócios


4 / A economia compartilhada será impactada em um mundo pós-pandemia?


As mudanças de comportamento dos consumidores no período pós-pandemia devem criar novas tendências para a economia compartilhada. Segundo dados do Grupo ZAP, as pesquisas por casas cresceram 390% na crise, enquanto as buscas por apartamentos de 1 quarto caíram de 25% do total, para 21%, as buscas por locais mais afastados também cresceram.


Essa tendência deve se manter mesmo depois da pandemia. Com uma grande quantidade de empresas repensando seu modelo de trabalho e formalizando o home office como permanente, pelo menos de forma parcial, os imóveis maiores e não tão próximos aos locais de trabalho devem se valorizar. Essas mudanças colocam os coworkings, espaços compartilhados entre diversas empresas para o trabalho, com um grande potencial de crescimento no pós-pandemia, tanto para as empresas que estão deixando os escritórios como forma de reduzir custos com a crise, como para os indivíduos que queiram espaços com uma infraestrutura melhor de trabalho do que suas próprias casas.


A WeWork, um das maiores empresas de coworking no mundo, fechou algumas unidades no Brasil durante a crise, mas as demais já estão adaptadas para um novo funcionamento, com distanciamento e higienização reforçada. A retomada do setor já está sendo sentida, no site BeerOrCoffee, plataforma que conecta potenciais clientes (empresas e pessoas físicas) a mais de mil coworkings no Brasil, a busca por espaços cresceu 60% na primeira quinzena de junho em comparação com o mês anterior.

As mudançascom o home office também devem impactar a mobilidade. Pesquisa do Valor Econômico ilustra como o público pretende com as novas medidas. Cerca de 31% dos entrevistados coloca Uber e 99, como principais opções, as bicicletas também aparecem com cerca de 5%. Apesar de parecer pequeno, o número é bastante representativo e opções como bicicletas e patinetes compartilhados devem seguir representativos nos principais centros do país. Entre os entrevistados, 47% afirmou que abriria mão do carro caso a empresa adote o home office mesmo depois da pandemia.



Fonte: Valor | Brasileiros aderiram ao “home office”, mas querem suas vidas pré-pandemia, aponta pesquisa exclusiva



Enquanto a maioria das empresas teve quedas na sua demanda e faturamento com a crise, outras tiveram sua receita alavancada. É o caso das empresas de sharing economy com foco no delivery. Segundo dados da Ebit Nielsen, 31% dos clientes que fizeram compras digitais em supermercados entre 17 de março e 27 de abril, usaram esse canal pela primeira vez.


A Instacart, que atua com entregas de compras de supermercado em mais de 5 mil cidades dos EUA, afirma que já entregou mais encomendas do que previa até o final de 2022.


O avanço da categoria se refletiu na operação da James Delivery. Em março, o aplicativo registrou mais de 80% de crescimento no número de downloads, chegando a uma base de 2,5 milhões de usuários. Empresas similares como Rappi na América Latina e a Cornershop, comprada pelo Uber, seguem na mesma direção.

A China, que já teve o pior período da pandemia contornado teve retomada no crescimento da economia compartilhada. Mesmo em abril, logo após a reabertura da economia os sinais de melhora já apareciam, volume de viagens da Didi, similar a Uber, estavam em 70% do pré-pandemia e as reservas do Airbnb estavam cerca de 200% acima do mês anterior.


Estudo divulgado pelo BCC Research durante a pandemia mostrou que a sharing economy fechou 2019 com valor de mercado de US$ 373 bilhões e deve chegar a US$ 1,5 trilhão em 2024, um crescimento ao ano de 31%, sendo uma grande parte representada por plataformas financeiras p2p, como crowdfunding.


Fontes:

- Uol | Dinheiro pós-pandemia: economia colaborativa pode sair ainda mais forte

- Exame | Ameaçado por coronavírus, Airbnb levanta US$ 1 bi para reforçar caixa

- Folha | Mais home office para bem formados traz destruição do emprego de baixa qualificação

- Neofeed | Com Uber e Airbnb nas cordas, Instacart vira a nova estrela da economia compartilhada

- Exame | Sem viagens, reservas de longo prazo no Airbnb sobem 24% no Brasil

- Yahoo finanças | Coworkings devem ganhar espaço após pandemia

- Exame | Economia compartilhada é colocada em xeque na pandemia