Atualizado: 8 de Set de 2020


  1. Sharing Economy: o que é e como surgiu?

  2. Economia tradicional x Economia compartilhada

  3. Cases

  4. A economia compartilhada será impactada em um mundo pós-pandemia?





1 / Sharing Economy: o que é e como surgiu?


O conceito surgiu na crise mundial de 2008, quando a redução do poder de compra fez os consumidores passarem a buscar alternativas para a redução de custos e o compartilhamento foi uma das saídas encontradas. A economia compartilhada é um conceito que está indo no sentido oposto ao consumo desenfreado, onde o consumidor não adquire a posse dos bens, mas sim o seu acesso ou uso. Dessa forma, bens que geralmente ficariam parados, como um carro ou um quarto vazio podem ser alugados e compartilhados como serviços. Sua essência é pautada principalmente em transações P2P, de pessoa para pessoa, e por essa razão ela geralmente envolve o uso de plataformas online para conectar o vendedor ao consumidor.


São consideradas empresas de economia compartilhada, negócios cujo core business possibilita e promove o acesso a bens subutilizados ou serviços, beneficiando os consumidores, principalmente com redução de custo. Elas também devem ser construídas em redes descentralizadas e marketplaces.


Segundo a especialista Rachel Botsman, existem 3 modelos para a economia compartilhada, são eles: mercados de redistribuição, lifestyle colaborativos e sistemas de produtos e serviços. O mercado de redistribuição é baseado no princípio “reduza, re-use, recicle, repare e redistribua”, um exemplo desse tipo de negócio é a plataforma Enjoei onde há a troca ou venda de produtos usados que estão ociosos. Já o lifestyle colaborativo tem como objetivo o compartilhamento de bens, serviços, espaços e até mesmo de tempo entre pessoas, um exemplo são os escritórios de coworking como a WeWork. O terceiro, sistema de acesso a produtos e serviços baseia-se em empresas que cobram para o usuário ter acesso ao invés da posse. Um exemplo desse estilo de negócio é o Airbnb, no qual o usuário consegue alugar um quarto ou uma casa exposta na plataforma.


Juntamente com o conceito de sharing economy muito se fala também sobre a gig economy, economia de freelancers ou sob demanda. Ela se caracteriza pela prestação de trabalhos temporários e de curto prazo através de profissionais autônomos, que diferente dos CLTs, não possuem benefícios ou vínculo empregatício. Essa modalidade ficou mais comum devido à demanda que muitas das empresas de economia compartilhada geram, é o caso dos entregadores e motoristas das plataformas como Uber e Ifood.


Fontes:

- Investopedia| Sharing Economy Definition

- Consumo Colaborativo| Entendendo o conceito: o que é economia compartilhada?

- SBCoaching | Economia Compartilhada: O que é, Para que Serve e Exemplos

- Ohio State News| In the sharing economy, consumers see themselves as helpers


2 / Economia tradicional x Economia compartilhada


Um ótimo jeito das empresas tradicionais se adaptarem à economia compartilhada é compartilhando os ativos que possuem criando novos modelos de negócio. Um exemplo de novo negócio aconteceu na Suíça, diante da queda do preço do leite no final da década de 90 diversos fazendeiros tiveram suas receitas reduzidas, como alternativa para retomar a receita um desses fazendeiros resolveu começar a fazer o leasing de suas vacas. Os clientes podem alugar um animal durante uma temporada e nesse período podem visitá-la, acompanhá-la nas atividades diárias e também possuem um desconto para a compra dos insumos gerados, como leite e queijo. Um exemplo semelhante é seguido pela Hilti, a empresa disponibiliza o aluguel, gerenciamento e reparo de ferramentas para a construção civil tudo com um valor fixo mensal. Assim, as ferramentas podem ser alugadas por um período e depois seguem para um novo cliente, e sempre que necessário os clientes podem renovar ou trocar de ferramentas sem custos adicionais.


A aquisição de novas empresas também pode ser um caminho para trazer os benefícios da economia compartilhada para dentro da organização. Em 2018, o Grupo GPA comprou o James delivery, app com o foco em entregas de alimentos. Atualmente o serviço está disponível em 134 lojas do grupo. Além disso, uma parceria com a Rede Raia Drogasil(RD) em 2019 garantiu a expansão dos serviços do James Delivery, acessando aos 55 milhões de clientes dos programas de fidelidade das duas empresas, GPA e RD. Hoje o app tem o conceito de super app, incluindo entregas de fast food, lojas de conveniência entre outros.


Fonte:

- Experience HSM | Empresas se adaptam à economia colaborativa


3 / Cases


São diversas as empresas de sharing economy conhecidas e usadas no dia a dia, Uber, Airbnb, Gympass, Yellow entre outras, passaram a fazer parte do cotidiano da população ao redor do mundo.


a) Transporte


No setor de transporte, exemplos de empresas com modelo de economia compartilhada são: Uber, 99Táxi, Cabify, Yellow, Blablacar, entre outros.


A Uber nasceu inicialmente como um aplicativo que oferecia motoristas particulares em carros de luxo. Porém, percebendo que o aplicativo atingia apenas pessoas com alto poder aquisitivo devido ao custo elevado, cerca de 1,5 vezes maior que um táxi, os fundadores mudaram a direção da empresa, barateando o custo final aos passageiros e tornando seu serviço mais acessível. O aplicativo chegou ao Brasil em 2014 e hoje o país está entre os que mais geram receita para a Uber.


Em 2018, a empresa expandiu para novas modalidades de economia compartilhada comprando a startup de aluguel de bicicletas elétricas Jump e liderando uma rodada de investimentos de US$335 milhões na startup de patinetes Lime. Em 2020, a Uber anunciou a fusão da Jump com a Lime e as operações de patinetes elétricos da Uber no Brasil, que estavam suspensas desde o início da pandemia, foram descontinuadas.

O mercado de compartilhamento de patinetes elétricos, diferente de serviços como Uber que “emprestam” dos motoristas a frota de carros, tem que arcar com todo o custo de operação dos patinetes, o que torna a lucratividade muito mais difícil. Em dezembro de 2019, John Paz, diretor da Lime no Brasil, disse que apesar da empresa crescer 20% ao mês, ela era deficitária no país. Após apenas 6 meses de operação, a Lime encerrou as atividades no Brasil.


Enquanto isso a startup de bicicletas e patinetes Grow, dona das marcas Grin e Yellow, também sofreu com falta de capital nesse mercado, encerrando operações em 14 cidades do Brasil e sendo adquirida pelo fundo Mountain Nazca no início de 2020. Com a aquisição, a startup passou para um novo modelo de aluguel mensal individual de patinetes e bicicletas, deixando de ser um equipamento compartilhado com outras pessoas. Nesse formato, o usuário recebe em casa um kit com os equipamentos após o pagamento no app da Grin e manutenções podem ser solicitadas no próprio aplicativo.

Devido a pandemia, a Uber demitiu 3,7 mil funcionários, cerca de 17% de seu time de trabalho e teve queda de 67% na receita de mobilidade, em contrapartida, teve aumento da receita com o Uber Eats chegando a 103%. De abril a junho a receita da companhia ficou em 2,24 bilhões, queda de 29% na comparação anual com 2019. Já a Grow demitiu metade de sua equipe no Brasil em junho de 2020.



Fontes:

- Estadão | Startup de patinetes Grow confirma compra por fundo latino Mountain Nazca

- Estadão | Em reconstrução, Grin lança plano mensal de aluguel individual de patinetes e bicicletas

- Estadão | Startup de patinetes Grow demite metade dos funcionários no Brasil

- Estadão | Gigante dos patinetes, Lime encerra operação no Brasil após seis meses

- Estadão | Uber encerra operação de patinetes no Brasil - Link - Estadão

- Estadão | 25 fatos sobre a história do Uber

- Valor | Prejuízo do Uber recua 66% no segundo trimestre | Empresas

- Tudo Tecnologia | Conheça a história do Uber, 99 e Cabify; aplicativos de "Táxi"

- Tecmundo | Uber


b) Hospedagem e Turismo


No setor de hospedagem, Couchsurfing e Airbnb podem ser citados como exemplos de compartilhamento e consumo colaborativo. O Couchsurfing surgiu em 2004 como uma plataforma online onde pessoas do mundo inteiro abrem suas casas para visitantes se acomodarem de forma gratuita, chegando a atingir um marco de 14 milhões de membros. O Airbnb oferece um serviço semelhante, operando por meio de perfis online, o proprietário oferece hospedagem de um imóvel inteiro ou compartilha o mesmo espaço de convivência com o hóspede. Mas, diferente do Couchsurfing, é necessário pagar pela estadia, valor esse frequentemente mais barato quando comparado com um hotel.


Essa forma de turismo alternativo se destacou e ganhou escala não só pelos baixos custos para seus usuários, mas também por oferecer uma experiência personalizada, a oportunidade de viver o dia a dia de diferentes culturas e, no caso do Airbnb, até estadias em lugares inusitados como castelos, casas na árvore, iglus, entre outros. Em 2011, 40% de todas as chegadas de hóspedes eram nas 10 maiores cidades da plataforma Airbnb, em 2019, cerca de 92% de todas as chegadas ocorreram fora das 10 maiores cidades, o que mostra uma grande expansão da rede. Ao todo, foram mais de meio bilhão de acomodações do Airbnb desde o início de sua operação.




Fonte: O Surgimento de um Novo Padrão de Pertencimento com a nossa Maior Noite



Devido a pandemia, o Airbnb reduziu drasticamente o seu time, foram cerca de 1,9 mil funcionários, 25% do total. A necessidade de isolamento social fez com que a demanda por viagens e locações em cidades turísticas reduzisse drasticamente. O presidente da empresa, Bryan Chesky, anunciou uma mudança estratégica, o Airbnb passará a focar também em reservas para períodos de longo prazo, para viajantes, trabalhadores e estudantes. No Brasil em março de 2020, a quantidade desse tipo de reserva mais longa, acima de 28 dias, subiu 28% em relação ao ano anterior, influenciada por pessoas buscando locais para passar o período de home office longe de aglomerações e de familiares do grupo de risco. No mesmo período, a empresa levantou 1 bilhão de dólares em uma rodada com empresas de Venture Capital, o dinheiro deve ajudar os principais anfitriões da plataforma, donos das residências com aluguéis mais frequentes, e também ajudar o caixa da empresa. Além disso, a plataforma registrou dia 8 de julho, mais de 1 milhão de reservas em todo o mundo, marca essa atingida pela primeira vez desde o dia 3 de março, o que representa para a empresa uma possível recuperação em reservas de curta temporada.


Fontes:

- News Airbnb | O Surgimento de um Novo Padrão de Pertencimento com a nossa Maior Noite

- Canal Tech | Airbnb: a história da startup que, hoje, vale 1 bilhão de dólares

- Revistas USP | Vista do Comportamento do Consumidor na Economia Compartilhada no Turismo

- Valor | Reservas no Airbnb despencam com epidemia de coronavírus

- Infomoney | Airbnb registra mais de 1 milhão de reservas pela primeira vez desde março


c) Outros Setores


A economia compartilhada está se expandindo e disruptando uma diversidade cada vez maior de setores como moda, tecnologia, animais de estimação, entre muitos outros. A startup FindUp por exemplo, fundada em 2015, diz ser a maior rede de técnicos de informática da América Latina. Ela se baseou nos conceitos de economia compartilhada, criando uma plataforma que conecta técnicos de informática, especializados na manutenção e conserto de computadores, com o mercado corporativo, como o Cinemark, Santander, Azul, Centauro, dentre outros. A empresa possui planos para atingir também micro e pequenas empresas além de clientes residenciais no futuro. Além disso, conseguiu aporte de 5 milhões de reais na semana do dia 07/08/2020 liderado pelo fundo de capital de risco brasileiro Domo Invest para ampliar os negócios da empresa que já possui mais de 10 mil técnicos atuando em 800 cidades do país.


Já a ClosetBoBags tem um modelo de negócio pautado no aluguel e venda de bolsas, roupas e acessórios de luxo, incluindo marcas consagradas como Chanel, Gucci, Balmain, Hermès, Off-White e Prada. “Quem tem peças que não usa, pode gerar renda alugando-as, recebendo 60% do valor. Ao mesmo tempo, a plataforma possibilita o acesso a produtos de luxo por quem não teria como adquiri-los naquele momento. Também queremos ser uma ferramenta para grifes tradicionais, que podem testar uma peça-piloto antes de produzi-la em larga escala” diz Isabel Braga, empreendedora e idealizadora do negócio. Com a crise do covid-19, o mercado de moda foi impactado e a ClosetBoBags começou novas iniciativas como aplicação de realidade aumentada para melhorar a experiência do usuário, fechou novas parcerias com marcas de roupas e abriu a plataforma para pequenas marcas que ainda não estavam comercializando via e-commerce.




Fontes:


- Exame| Startup de "delivery" de técnicos de informática recebe aporte milionário

- O Globo| Lançada como plataforma de aluguel bolsas, a BoBags amplia e investe em roupas grifadas

- Valor Investe | Empreendedoras de moda veem dificuldade em se desvencilhar de pré-conceitos para gerir seus negócios


4 / A economia compartilhada será impactada em um mundo pós-pandemia?


As mudanças de comportamento dos consumidores no período pós-pandemia devem criar novas tendências para a economia compartilhada. Segundo dados do Grupo ZAP, as pesquisas por casas cresceram 390% na crise, enquanto as buscas por apartamentos de 1 quarto caíram de 25% do total, para 21%, as buscas por locais mais afastados também cresceram.


Essa tendência deve se manter mesmo depois da pandemia. Com uma grande quantidade de empresas repensando seu modelo de trabalho e formalizando o home office como permanente, pelo menos de forma parcial, os imóveis maiores e não tão próximos aos locais de trabalho devem se valorizar. Essas mudanças colocam os coworkings, espaços compartilhados entre diversas empresas para o trabalho, com um grande potencial de crescimento no pós-pandemia, tanto para as empresas que estão deixando os escritórios como forma de reduzir custos com a crise, como para os indivíduos que queiram espaços com uma infraestrutura melhor de trabalho do que suas próprias casas.


A WeWork, um das maiores empresas de coworking no mundo, fechou algumas unidades no Brasil durante a crise, mas as demais já estão adaptadas para um novo funcionamento, com distanciamento e higienização reforçada. A retomada do setor já está sendo sentida, no site BeerOrCoffee, plataforma que conecta potenciais clientes (empresas e pessoas físicas) a mais de mil coworkings no Brasil, a busca por espaços cresceu 60% na primeira quinzena de junho em comparação com o mês anterior.

As mudançascom o home office também devem impactar a mobilidade. Pesquisa do Valor Econômico ilustra como o público pretende com as novas medidas. Cerca de 31% dos entrevistados coloca Uber e 99, como principais opções, as bicicletas também aparecem com cerca de 5%. Apesar de parecer pequeno, o número é bastante representativo e opções como bicicletas e patinetes compartilhados devem seguir representativos nos principais centros do país. Entre os entrevistados, 47% afirmou que abriria mão do carro caso a empresa adote o home office mesmo depois da pandemia.



Fonte: Valor | Brasileiros aderiram ao “home office”, mas querem suas vidas pré-pandemia, aponta pesquisa exclusiva



Enquanto a maioria das empresas teve quedas na sua demanda e faturamento com a crise, outras tiveram sua receita alavancada. É o caso das empresas de sharing economy com foco no delivery. Segundo dados da Ebit Nielsen, 31% dos clientes que fizeram compras digitais em supermercados entre 17 de março e 27 de abril, usaram esse canal pela primeira vez.


A Instacart, que atua com entregas de compras de supermercado em mais de 5 mil cidades dos EUA, afirma que já entregou mais encomendas do que previa até o final de 2022.


O avanço da categoria se refletiu na operação da James Delivery. Em março, o aplicativo registrou mais de 80% de crescimento no número de downloads, chegando a uma base de 2,5 milhões de usuários. Empresas similares como Rappi na América Latina e a Cornershop, comprada pelo Uber, seguem na mesma direção.

A China, que já teve o pior período da pandemia contornado teve retomada no crescimento da economia compartilhada. Mesmo em abril, logo após a reabertura da economia os sinais de melhora já apareciam, volume de viagens da Didi, similar a Uber, estavam em 70% do pré-pandemia e as reservas do Airbnb estavam cerca de 200% acima do mês anterior.


Estudo divulgado pelo BCC Research durante a pandemia mostrou que a sharing economy fechou 2019 com valor de mercado de US$ 373 bilhões e deve chegar a US$ 1,5 trilhão em 2024, um crescimento ao ano de 31%, sendo uma grande parte representada por plataformas financeiras p2p, como crowdfunding.


Fontes:

- Uol | Dinheiro pós-pandemia: economia colaborativa pode sair ainda mais forte

- Exame | Ameaçado por coronavírus, Airbnb levanta US$ 1 bi para reforçar caixa

- Folha | Mais home office para bem formados traz destruição do emprego de baixa qualificação

- Neofeed | Com Uber e Airbnb nas cordas, Instacart vira a nova estrela da economia compartilhada

- Exame | Sem viagens, reservas de longo prazo no Airbnb sobem 24% no Brasil

- Yahoo finanças | Coworkings devem ganhar espaço após pandemia

- Exame | Economia compartilhada é colocada em xeque na pandemia


Como as Big Techs têm revolucionado e expandido mercados.

1. FAAMG

2. As Big Techs na pandemia

3. Novos negócios das Big Techs

4. Nova tributação

5. Transferência de dados internacionais



1 / FAAMG


FAAMG é o acrônimo dado para as cinco maiores empresas de tecnologia do mundo: Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google. Essas empresas juntas possuem um valuation de mais de US$ 5 trilhões de dólares e já representam 20% do valor de todo o S&P500. Por vezes, utiliza-se o acrônimo FAAMNG com inclusão da Netflix neste grupo. Apesar de já serem gigantes do mercado, suas estratégias de crescimento não param. Elas já fizeram aquisições de inúmeras companhias e estão cada vez mais expandindo seu território para novos mercados.



Fonte: Investing | 5 Megabalanços Podem Definir o Destino do Mercado Americano nas Próximas Semanas



As Big Techs também estão entre as marcas mais valiosas do mundo. A ilustração abaixo traz as marcas mais representativas do mundo.



Fonte: Infomoney | Este gráfico mostra as 100 marcas mais valiosas do mundo em 2020



Facebook


O Facebook hoje possui 2,6 bilhões de usuários e, apesar de possuir apenas 16 anos de existência, já comprou mais de 70 companhias diferentes, dentre elas o Whatsapp, Instagram, Face.com, FriendFeed e OculusVR. O Instagram, adquirido pelo Facebook por US$1 bilhão, teve sua compra julgada com muito ceticismo na época, visto que tinha apenas 30 milhões de usuários e US$0 de receita. Hoje, ele cresce mais do que o próprio Facebook, possui mais de 1 bilhão de usuários e tem um valuation estimado pela Bloomberg de mais de US$100 bilhões.


Valuation do Instagram

No primeiro trimestre de 2020, o resultado do Facebook foi acima das expectativas do mercado, a receita da companhia cresceu 18% em relação ao mesmo período do ano anterior e seu lucro líquido dobrou. Além disso, nos últimos 4 meses a gigante viu suas ações se valorizarem em cerca de 60%.


Apesar do resultado positivo, o Facebook vem enfrentando boicote global de mais de 400 anunciantes por conta da maneira que vem lidando com discurso de ódio de desinformação. A empresa mais recente ao anunciar o boicote foi a Disney, e ao contrário dos demais participantes, se trata de um grande anunciante, o maior do primeiro semestre de 2020 nas plataformas do Facebook. Segundo a CNN, as 100 marcas que mais gastaram foram responsáveis por US$ 4,2 bilhões em publicidade no Facebook no ano passado, ou cerca de apenas 6% da receita de publicidade da plataforma, mostrando que a receita da empresa é bastante pulverizada entre os anunciantes e portanto o impacto do boicote ainda parece pequeno.


Em março, o número de usuários ativos diários cresceu 11% em relação ao mesmo mês em 2019, o que mostra o engajamento e relevância da plataforma para a retomada de anunciantes. Além disso, durante a pandemia, o Facebook comprou quase 10% da Realiance Jo, gigante de telecomunicações da Índia, aquisição estratégica pelo potencial do mercado indiano e pelo uso do Whatsapp no país.


Fontes:

Growth Rocks| The Big Five Tech Companies: Infographic & History

Folha | Lucro do Facebook dobra, mas empresa espera queda na publicidade por pandemia

Suno Research | Facebook cria equipes para analisar o racismo nas suas redes sociais



Amazon


Fundada em um porão em Seattle, a Amazon, em 2019, teve mais de 3,5 bilhões de pedidos (um para cada dois habitantes da Terra) e, hoje possui um valor de mercado de mais de 1,5 trilhões de dólares. Além disso, foi uma das empresas que mais ganharam com a pandemia do coronavírus, beneficiando-se do aumento das compras online e crescendo quase 65% desde o final de março.


Dentre as estratégias da Amazon, Jeff Bezos reforçou o uso da Flywhell, assim denominada por Jim Collins. Seu princípio está pautado no desenvolvimento de novos negócios e projetos com o objetivo de alavancar seu negócio inicial. A Amazon Web Services (AWS) é um exemplo disso, a solução de computação em nuvem foi criada inicialmente para suportar sua própria demanda de armazenamento e processamento de dados. Hoje ela é comercializada para outras empresas e é uma das principais fontes de receita da Amazon.

Outro ponto de destaque da Amazon é sua cultura e doutrina de obsessão pelo consumidor. Desde oferta de produtos, assistência de alto padrão, pontualidade na entrega, a empresa quer formar clientes fiéis que voltarão para consumir outros produtos. Uma frase famosa repetida por Bezos é “Your margin is my opportunity,” pela sua cultura de frugalidade e reduzir os preços para os clientes. O Amazon Prime é a concretização dessa estratégia, hoje são mais de 150 milhões de assinantes no mundo que tem acesso a vantagens como frete grátis, mais agilidade na entrega, serviços de streaming entre outros.

Para Bezos, a Amazon sempre comportará como se fosse o “Day One”, isto é, independente do seu tamanho e influência, ela terá um comportamento de startup, com agressividade para expandir suas operações e ser inovadora.

A expressão veio da carta aos acionistas publicada ainda em 1997: this is Day 1 for the Internet and, if we execute well, for Amazon.com. Today, online commerce saves customers money and precious time. Tomorrow, through personalization, online commerce will accelerate the very process of discovery. Amazon.com uses the Internet to create real value for its customers and, by doing so, hopes to create an enduring franchise, even in established and large markets.


Em 2016, Bezos escreveu: “Day 2 is stasis. Followed by irrelevance. Followed by excruciating, painful decline. Followed by death. And that is why it is always Day 1.”


Fonte: Infomoney | Cinco estratégias de Jeff Bezos que fizeram da Amazon uma das empresas de maior sucesso da história


Apple


A Apple foi a primeira empresa na Bolsa a ter um valor de mercado acima de 1 trilhão de dólares e hoje é a empresa mais valiosa das bolsas de valores dos EUA com um valor de mercado de 1,68 trilhões de dólares.


Atualmente, o número de pessoas que compram seu primeiro iPhone (carro chefe da Apple na última década) tem diminuído desde o seu pico em 2016. A empresa também observou que as pessoas estão mantendo seus iPhones por períodos de tempo mais longos e, além disso, analistas da Goldman Sachs projetaram que os consumidores terão tendência a consumir os modelos mais baratos, reduzindo o preço médio dos iPhones vendidos pela Apple.


Apesar disso, a Apple registrou uma receita trimestral recorde na última temporada de fim de ano e suas ações subiram cerca de 70% desde o final de março de 2020. Isso acontece porque essa gigante vem relatando, trimestre após trimestre, um crescimento cada vez maior na receita de serviços (assinaturas de iCloud, Apple Music e TV e comissões sobre vendas de aplicativos), que hoje está representando cerca de 23% da receita total da companhia. Outro fator que explica o crescimento é o número de dispositivos ativos da Apple no mundo, em 2016, existiam 1 bilhão de dispositivos ativos, hoje são 1,5 bilhão. Desses 1,5 bilhão de dispositivos, aproximadamente 500 milhões são de consumidores que possuem apenas um iPhone e nenhum outro dispositivo da Apple, o que representa uma parcela grande de oportunidades para aumentar a receita com outros produtos da marca.


Fontes:

Techtudo | Apple faz 44 anos: veja sete vezes que a empresa saiu na frente das rivais

Folha | Cada vez menos pessoas compram seu primeiro iPhone, mas Apple não está preocupada


Microsoft


Batizada com a junção das palavras “microcomputer” e “software”, a Microsoft foi fundada por Bill Gates e Paul Allen em 1976. Em 1980, a empresa já tinha alcançado fama o suficiente para chegar aos ouvidos da IBM, líder global de computadores empresariais, que na época precisava de um sistema operacional para lançar seu microcomputador pessoal. Em um dos maiores blefes do mundo corporativo, Gates disse que já tinha um programa e assinou o contrato com a IBM, quando, na verdade, ele foi comprar um sistema pronto e fez alguns ajustes para a comercialização. Essa exposição permitiu a alavancagem da Microsoft como líder global de softwares e colocou Bill Gates na lista dos homens mais ricos do mundo (revista Forbes) ainda na década de 80.


Em meados da década de 2000, a Microsoft começou a perder a liderança em softwares por não entrar na revolução tecnológica dos telefones celulares, além disso, empresas ficaram à sua frente em diferentes produtos como a Apple com os tocadores de música e o Google com anúncios online e sistemas operacionais para celular. Para correr contra o tempo perdido nessas categorias, a Microsoft adquiriu empresas como o Yahoo, Skype, Nokia, Linkedin e, desde 2014, passou a focar em soluções na nuvem e inteligência artificial.


Hoje a empresa é a segunda mais valiosa do mundo com um valor de mercado acima de US$1,5 trilhões. Seu resultado do primeiro trimestre de 2020 superou expectativas dos investidores, a receita subiu 15% em relação ao ano anterior e o lucro líquido atingiu US$10,75 bilhões contra US$8,81 bilhões no ano anterior. Esse resultado foi muito impulsionado pela demanda da ferramenta de comunicação remota Teams e pela plataforma Xbox de videogames. Durante a pandemia a empresa vem se destacando, crescendo 51% nos últimos 4 meses, o que supera o desempenho do S&P que foi de 38% no mesmo período.


Fontes:

Infomoney | Bill Gates: de prodígio a bilionário que quer mudar o mundo

Seu Dinheiro | Bill Gates viu o futuro, blefou para fechar contratos e ficou bilionário – e decidiu doar quase tudo

Forbes | How Microsoft Created $800 Billion In 3 Years – Can It Repeat?

UOL | Microsoft tem resultado acima do esperado impulsionado por serviços online


Google

O Google nasceu nos dormitórios da Universidade de Stanford por Larry Page e Sergey Brin como um produto que fazia ranking e indexação de páginas na internet. Hoje essa gigante conta com produtos como Youtube, Android, Chrome, Waze, Google Maps, Translate, dentre outros. A Alphabet, holding que abriga o Google e outras iniciativas, atingiu no início de 2020 um valor de mercado de US$1 trilhão, se tornando a terceira empresa americana a atingir esse patamar e é hoje a quarta empresa mais valiosa das bolsas de valores dos EUA. Dentre os negócios da Alphabet estão a Calico, empresa de biotecnologia com foco em pesquisa e desenvolvimento para tornar a vida humana mais longa e saudável, a Google Capital e Google Ventures, que focam em investimentos em outras empresas e startups e Google Nest com foco em produtos de smart home. No primeiro trimestre de 2020, a Alphabet obteve um aumento de 13,2% de receita em comparação com o mesmo período do ano anterior e um lucro líquido de US$6,8 bilhões.


Dentre os diversos produtos da Google, a computação em nuvem (Google Cloud) gerou uma receita de US$2,77 bilhões no primeiro trimestre, o que representa um aumento de 52% em relação ao mesmo período de 2019 e um aumento de 6,9% em relação ao trimestre anterior. É esperado um crescimento pela computação em nuvem ao mesmo passo que o trabalho remoto se consolida no mundo.


A receita de anúncios do Google também cresceu consideravelmente no primeiro trimestre, com um aumento de 33% no período. Mas a empresa diz que houve uma diminuição significativa de receita com publicidade no mês de março, quando os efeitos da pandemia começaram a ser sentidos e investidores se preocupam com esse impacto negativo de redução dos gastos com publicidade visto que essa parcela respondeu por 82% da receita trimestral total da companhia. Dessa forma, as ações do Google subiram “apenas” 42% nos últimos 4 meses, ficando atrás das outras 4 Big Techs.


Fontes:

Infomoney | Dona do Google supera expectativas no primeiro trimestre, mas publicidade recua

Infomoney | Alphabet, holding do Google, bate US$ 1 trilhão em valor

Infomoney | Larry Page: o gênio que criou o Google e deixou todas as informações à distância de um clique


Ações FAAMG x demais empresas S&P500


Fonte: FactSet, Goldman Sachs Global Investment Research



2 / As Big Techs na pandemia


Ao contrário da situação causada pela pandemia na maioria das empresas, as Big Techs tiveram crescimentos significativos no período. A pandemia tornou os serviços dessas empresas quase como essenciais, através da necessidade de compras online, de distração durante o confinamento e como forma de comunicação.




A Apple comprou pelo menos quatro empresas este ano e lançou um novo iPhone. A Microsoft comprou três empresas de computação em nuvem. A Amazon está negociando a aquisição de uma startup de veículos autônomos, alugou mais aviões para entrega e contratou mais 175 mil pessoas desde março. O Google lançou novos recursos de mensagens e vídeo. O Facebook entrou com participação em algumas empresas como a indiana Reliance Jio e lançou novos produtos, como o Messenger Rooms.


Com todos os investimentos e crescimento dessas empresas seus valores de mercado dispararam no período, a imagem abaixo ilustra o acumulado de crescimento do ano, incluindo também a Netflix, uma das gigantes de tecnologia favorecida com o período de quarentena e que muitas vezes já é incluída no acrônimo original das Big Techs, formando a FAANGM.



Fonte: Investing | Finance (@investing.mindset) • Instagram photos and videos


Fontes:

Estadão | A economia está cambaleando. E as gigantes de tecnologia buscam oportunidades

The Washington Post | Why Amazon, Facebook, Google, Apple and Microsoft are the winners of the coronavirus crisis - The


3 / Novos negócios das Big Techs


A expansão das frentes de negócios parece ser uma estratégia da maioria das Big Techs. Scott Galloway, autor do livro ‘Os Quatro: Apple, Amazon, Facebook e Google, o Segredo dos Gigantes da Tecnologia’ comenta que as empresas já não tem muito como expandir em seus setores, já que praticamente dominam o mercado mundial, e portanto é comum a perspectiva de entrada em novos negócios.


No início do ano a Microsoft criou a iniciativa AI for health (Inteligência artificial para a saúde, em português) que tem como objetivo dar recursos para acelerar a pesquisa médica e dar suporte às pesquisas. Na mesma linha, logo no início da pandemia, Google e Apple já vinham mostrando interesse no setor de saúde. O Google criou o projeto Nightingale com a Ascension, um dos principais sistemas de saúde dos EUA, que juntos esperam desenvolver ferramenta de inteligência artificial para médicos. Além de ter comprado a Fitbit, marca de relógios que medem atividade física, frequência cardíaca, entre outros. Já a Apple vem investindo no Apple watch, com diversas funcionalidades ligadas também a saúde.


Outro setor que está sendo usado pelas Big Techs para a expansão é o bancário. A Apple possui o Apple pay, que possibilita o pagamento via celular, e no ano passado, juntamente com o Goldman Sachs lançou o seu próprio cartão de crédito, o Apple card. Também no ano passado o Facebook lançou o Facebook Pay, que permite pagamentos e transferências pelos aplicativos da empresa, como o Whatsapp e o Instagram. O primeiro país a ser testado os pagamentos por Whatsapp foi o Brasil, mas teve sua sequência interrompida pelo Banco Central, devido à risco de segurança. O presidente do Bacen, Roberto Campos Neto, afirmou no último dia 16 que o sistema irá voltar ao ar no Brasil o mais rápido possível, que só está sendo feita todo o fluxo de aprovação pelo qual todos os meios de pagamentos passam no país.


Fontes:

G1 | Pagamento via Whatsapp será aprovado o mais rápido possível, diz presidente do BC

Veja | Na crise, gigantes como Apple, Google e Facebook expandem atuação

O Globo | 'Big techs' querem tomar conta do seu dinheiro

BBC | Project Nightingale: Google accesses trove of US patient data


4 / Nova tributação


A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) está reestruturando as regras tributárias globais, com foco em atualizar para a era digital. Para tal, 140 países estão envolvidos no desenvolvimento desse acordo e possuem interesses conflitantes.


Enquanto para os EUA, é interessante que o critério de tributação seja do país que a empresa tem presença física, tendo em vista que a maioria das Big Techs estão em seu território, para a maioria dos demais países, que concentram grande parte da demanda, o interesse está em tributar a transação que acontece envolvendo consumidores do seu território.


Na metade de junho os EUA se retiraram das negociações alegando que o acordo não estava progredindo, na mesma data afirmou que medidas de retaliação poderiam ser aplicadas à Europa se a construção de impostos específicos para empresas de tecnologia norte-americanas continuasse. Esse movimento provocou receios de que uma nova guerra comercial, entre EUA e União Européia pudesse acontecer.


A França, um dos países que estipulou novos impostos sobre os serviços digitais, tinha suspendido a cobrança enquanto os países estavam em negociação. Porém com a saída dos EUA, o ministro Bruno Le Maire afirmou que os impostos serão implantados ainda em 2020.


No Brasil, a discussão sobre o tema também está em alta, no último dia 16 a Câmara dos deputados fez um requerimento formal ao ministro da economia Paulo Guedes pedindo detalhamento sobre os impostos pagos pelas empresas de tecnologia ao Brasil. Há dois projetos de lei (PL) em andamento que corroboram essa afirmação um que prevê a criação de uma Cide (Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico) Tecnologia, incidente sobre a receita bruta de serviços digitais de grandes empresas de tecnologia e outro que prevê uma alíquota majorada para a Cofins para empresas de com alta receita e que utilizam plataformas digitais.


Fontes:

Valor |Câmara questiona Guedes sobre tributação de gigantes da tecnologia no Brasil

Valor | Tributação digital brasileira na berlinda | Legislação | Valor Econômico

Suno | EUA suspendem projeto de impostos digitais globais

Yahoo | Gigantes da Tecnologia podem ser tributadas na Europa de forma unilateral


5 / Transferência de dados internacionais


Outra decisão tomada nos últimos dias tende a afetar as Big Techs. O Tribunal de Justiça da União Européia anulou o acordo de transferência de dados entre União Européia e EUA, a medida encerra o acesso que as empresas dos EUA tinham de dados pessoais de usuários da Europa, tornando a situação igualitária com os demais países. A medida tende a afetar principalmente empresas como Facebook e Google. O Facebook se pronunciou dizendo que ainda está estudando os reais impactos da nova decisão.


Segundo Max Schrems, um dos juristas que iniciou o caso, a transferência de dados entre as sedes do Facebook na Irlanda e a matriz na Califórnia permitem que agências de segurança como o FBI e NSA possam ter também acesso aos dados.


As empresas afetadas, incluindo diversas empresas menores que usam também de transferência de dados entre as duas regiões, agora terão que assinar contratos padrões da UE garantindo padrões de segurança nas transações.


Fontes:

BBC | EU-US Privacy Shield for data struck down by court

O Globo | Justiça europeia anula acordo UE-EUA sobre transferência de dados pessoais; decisão afeta gigantes como Facebook




Atualizado: 26 de Jun de 2020

A crise e as perspectivas de recuperação no Brasil e no Mundo



1. Impactos econômicos da covid-19 

2. Recuperação em V, W ou U 

3. Recuperação econômica mundial pós-pandemia 

4. Perspectivas para o Brasil






1/  IMPACTOS ECONÔMICOS DA COVID-19


O começo de 2020 foi marcado pela disseminação global do coronavírus. Primeiro na China, ainda em dezembro de 2019, depois na Itália e França, e logo o vírus alcançou virtualmente o mundo inteiro. Como medida de combate, os governos restringiram a circulação de pessoas (os chamados lockdowns) que, por um lado, retardaram o crescimento da doença, mas, por outro, causaram graves danos à economia global em especial aos setores de varejo e turismo.


No Brasil, os impactos da doença começaram a ser sentidos apenas em março, com o PIB brasileiro recuando 0,3% nos três primeiros meses de 2020 em relação ao primeiro trimestre de 2019, havendo uma expectativa de impactos ainda mais severos nesse segundo trimestre. Ressalta-se, ainda, que a retração enfrentada interrompeu uma trajetória de 3 anos de lenta recuperação econômica, trajetória essa que ainda nos deixava distante do patamar anterior ao início da recessão de 2014-2016.




Fonte: G1 | Com pandemia, PIB do Brasil encolhe 1,5% no 1º trimestre e regride ao patamar de 2012



Fonte: G1 | Desempenho do PIB do Brasil no 1º tri fica em 23º em ranking com 44 países



De acordo com o IBGE, o setor mais impactado foi o de serviços, que representa 74% do PIB brasileiro e apresentou queda de 1,6%. Foi a maior queda desde o quarto tri de 2008 (-2,3%) quando a quebra do Lehman Brothers e uma enorme crise bancária praticamente paralisou a economia global.




Fonte: G1 | Com pandemia, PIB do Brasil encolhe 1,5% no 1º trimestre e regride ao patamar de 2012



Se considerarmos o mês de abril, primeiro mês 100% afetado pelo coronavírus, o setor de serviços recuou 11,7% na comparação com o mês anterior, o pior registro desde o início da série histórica em 2011. De acordo com Luana Miranda, pesquisadora FGV Ibre, os serviços prestados às famílias correspondem a 24% do PIB do país e já registram uma perda acumulada de 61,6% durante a pandemia. 

O setor de alojamento e alimentação também está com forte perda acumulada, totalizando 64,6%. O presidente da Associação Nacional de Restaurantes, Cristiano Melles, diz que a situação piorou depois de abril e que a estimativa é de que 22% dos estabelecimentos (cerca de 200 mil locais) não devem reabrir as portas, resultando também na perda de aproximadamente 1 milhão de empregos.

Outro setor em forte queda é o de transporte aéreo, com uma perda acumulada de 80,9%. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas, Eduardo Sanovicz, abril foi o pior mês da história da aviação com uma queda de 2,6 mil voos diários para 180. Mas a expectativa é de melhoria nesse setor com o mês de maio apresentando uma média de 262 voos diários, junho com 353 e uma estimativa para 500 em julho.



VARIAÇÃO DO SETOR DE SERVIÇOS NO BRASIL



ACUMULADO DE PERDAS DOS SETORES DE SERVIÇOS DURANTE A PANDEMIA

Fonte: Folha de São Paulo | Economistas veem Brasil em depressão econômica e projetam recuperação lenta



Segundo dados do Ministério da Economia, desde a segunda quinzena de março, quando a economia brasileira começou a sentir os primeiros impactos, até maio, o número de pedidos de seguro desemprego atingiu 1,94 milhões, um crescimento de 26% quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Se analisarmos apenas o mês de maio, foram registrados 960,2 mil pedidos de seguro desemprego, 53% maior que o mesmo mês de 2019. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, a economia brasileira fechou 1,1 milhão de vagas de trabalho com carteira assinada entre os meses de março e abril. O mês de abril foi o que mais se destacou com 860,5 mil postos fechados, maior demissão registrada em um único mês em 29 anos.


Fonte: G1 | Seguro-desemprego: país tem 960 mil pedidos em maio; total durante pandemia vai a 1,9 milhão



Além disso, o índice de deflação no país preocupa os economistas. A menor pressão dos preços dos alimentos e o recuo nos combustíveis fez com que o índice de deflação no país reduzisse 0,38% em maio, resultado mais baixo para o mês desde que a inflação começou a ser calculada em 1980.


DEFLAÇÃO NO BRASIL


Fonte: Folha de São Paulo | Economistas veem Brasil em depressão econômica e projetam recuperação lenta



2 /  RECUPERAÇÃO EM V, W OU U


Há alguns termos usados para explicar a retomada financeira de um país logo após uma recessão econômica. Desde o início da pandemia, muito se fala sobre a recuperação em V, mas outros cenários também são considerados pelos economistas, como a recuperação em U ou em W. O indicador que é acompanhado para a retomada geralmente é o PIB do país, que é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por uma nação e serve para mensurar o ritmo da atividade econômica em um dado local. 

A retomada em V caracteriza uma recuperação rápida aos patamares pré-crise, se trata de um dos cenários mais otimistas. Uma recuperação desse tipo seria possível caso fosse encontrada uma cura ou vacina para a covid-19, por exemplo.

Já a recuperação em U é mais lenta, se caracteriza por uma queda acentuada, seguida de um período de estagnação e posterior retomada. Essa situação é a que muitos economistas acreditam para o mundo pós-pandemia, já que muito do que foi perdido de produção nos tempos de confinamento não pode ser recuperado de forma rápida. As pessoas que não viajaram no período, por exemplo, não devem ter uma demanda acumulada que irá ser toda consumida logo no retorno. 

O cenário de recuperação em W ilustra a situação de idas e voltas do problema, tendo como exemplo o temor por uma segunda ou terceira onda de infecções em massa.


Fonte: BBC | Crise e coronavírus: V, U ou W, os 3 cenários possíveis para a recuperação econômica após a pandemia de covid-19



3/  RECUPERAÇÃO ECONÔMICA MUNDIAL PÓS PANDEMIA


Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), se o coronavírus continuar sob controle da maioria dos países do mundo, a economia mundial deve sofrer uma queda de 6% no ano, que poderia chegar a 7,6% com uma segunda onda de contágio. A expectativa é que em 2021 a economia dos países volte a patamares positivos, com 2,8% de crescimento, mesmo que contando com efeitos prolongados da crise. A organização também prevê que a recuperação será desigual nos países. Economias emergentes, como Brasil, Rússia e África do Sul devem sofrer bastante por terem seus sistemas de saúde mais pressionados e uma queda de preços nas commodities. É importante registrar que apesar de haver um esforço relevante em realizar estas previsões, a verdade é que há uma enorme incerteza nos números acima.

Segundo a Bloomberg, quase todos os países acompanhados registraram retomada em maio, em comparação com os meses de março e abril. Alemanha, Japão e França estão entre os que mais recuperaram, em posição contrária a Espanha e Reino Unido, que seguem a retomada a passos mais lentos.

O gráfico abaixo ilustra o início da recuperação da indústria ao redor do mundo no mês de maio.


Fonte: Bloomberg | The 12 Global Economic Indicators to Watch



-  CHINA

Na China, o primeiro país a superar a quarentena, a economia está se recuperando lentamente. Depois da queda de 6,8% do PIB no primeiro trimestre alguns dados do mês de maio sinalizaram a retomada: A produção de aço do país atingiu níveis recordes e a produção industrial aumentou 4,4% em comparação com o mesmo mês de 2019. A demanda por petróleo no país já atingiu cerca de 90% dos patamares anteriores à pandemia, e como o país é o segundo maior consumidor do mundo, seu retorno ajudou a estabilizar os preços do petróleo em torno de 40 dólares, ainda bem abaixo dos patamares pré-crise. Para a retomada, muito dinheiro está sendo injetado na economia. Dados do PBoC (Banco Popular da China, com sua sigla em inglês), o BC chinês, mostram que em março os bancos chineses concederam 2,85 trilhões de yuans em crédito, cerca do triplo do valor de fevereiro, que foi de 905,7 bilhões.

A recuperação da indústria chinesa pode ser vista no gráfico abaixo. O PMI (Purchasing Managers Index ou, em português, Índice de Mercado dos Gerentes de Compra) é um indicador de difusão da produção. Um resultado acima de 50 pontos significa crescimento em relação ao mês anterior. Abaixo de 50, redução.



PMI CHINA


Fonte: Bloomberg | The 12 Global Economic Indicators to Watch



Cerca de 6 semanas depois da reabertura da economia chinesa apenas 40% dos pequenos negócios do país tinham voltado ao funcionamento. Apesar disso, o varejo, que ainda está no negativo, apresenta melhora em comparação a abril. A queda em maio é de 2,8% em relação ao ano anterior, enquanto em abril esse número foi de 7,5%. 

No início do ano a expectativa era de que a retomada da China, o primeiro país a conseguir controlar a pandemia e assim reduzir o lockdown, fosse rápida, desenhando a curva em V, entretanto a retomada não está sendo tão rápida quanto as previsões. A demanda por produtos chineses ao redor do mundo ainda não voltou aos patamares pré-crise, já que diversos países ainda mantêm variadas formas de lockdown reduzindo o consumo discricionário. 



-  EUROPA E EUA


No final de maio, a Comissão Europeia aprovou um plano de recuperação econômica de 750 bilhões de euros para ajudar as economias mais afetadas pela crise. Na última semana, os líderes da União Europeia (UE) se reuniram para discutir a proposta e o orçamento da UE para os anos de 2021 à 2027. O grupo de líderes se divide em diversas opiniões de como deve ser executado o plano, tendo países em situações melhores e piores. O medo de alguns é uma “união de dívidas” que possa piorar a situação dos países que não foram tão prejudicados na crise. As decisões foram adiadas para julho, quando ocorrerá um encontro presencial para a discussão. As medidas de distanciamento social vêm sendo flexibilizadas na Europa desde maio, com fronteiras sendo reabertas aos poucos pelos países na tentativa de aproveitar o verão para a retomada do turismo. Estima-se que esta indústria chega a perder 1 trilhão de euros por mês com restrições de confinamento. A Itália, um dos países mais afetados e o primeiro país europeu a sofrer com o Covid, já reabriu suas fronteiras aos demais países da UE, assim como restaurantes e bares voltaram a funcionar. Madri e Barcelona, as cidades espanholas mais afetadas pela pandemia, também reabriram seu comércio e demais serviços. Já no EUA, alguns setores da economia começaram a registrar uma pequena melhora nos seus índices em maio, logo após a retomada das atividades. Companhias aéreas, restaurantes, transportes de carga e mercado imobiliário foram os setores com dados positivos. O Departamento de Comércio americano mostra alta na venda de imóveis em 1% nas últimas semanas, porém muito melhor do que os 20% de queda prevista anteriormente.  O desemprego, que atingiu os piores patamares da história no país, apresentou uma melhora importante em maio, saindo de 14,7% em abril para 13,3%, com o ganho de 2,5 milhões de novos empregos.


EVOLUÇÃO DO DESEMPREGO NOS EUA


Fonte: The New York Times | Unexpected Drop in U.S. Unemployment Helps Markets Rally



O Índice Dow Jones, baseado nas 30 maiores empresas dos EUA, ilustrado abaixo, mostra recuperações a partir de abril, porém ainda longe dos patamares pré-pandemia.


EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DOW JONES



Fontes:

El País | OCDE prevê recuperação lenta e desigual da economia mundial depois da crise do coronavírus

Money Times |  Economia global mostra primeiros sinais de recuperação

Uol | Lenta retomada da China indica rota difícil para economia global

Negócios | "Até com reabertura, recuperação da China é muito lenta", diz consultor

Reuters | China drives global oil demand recovery out of coronavirus collapse

Folha de São Paulo | EUA mostram sinais de melhora na economia mas vivem risco de nova onda do coronavírus

Uol | Enquanto europeus retomam vida social, países das Américas seguem meio a incertezas

G1 | Líderes da União Europeia dizem não estar prontos para assinar um plano de recuperação

El País | Bruxelas aprova o maior plano de recuperação da história da União Europeia: 750 bilhões de euros


4 / PERSPECTIVAS PARA O BRASIL


A recuperação econômica brasileira será mais lenta do que a média global de acordo com as estimativas divulgadas pelo Banco Mundial. Segundo esta entidade, o PIB brasileiro deve recuar 8% em 2020 e crescer 2,2% em 2021, comparáveis a uma estimativa para a média mundial de 5,2% de retração em 2020 e crescimento de 4,2% em 2021. Já o FMI prevê um recuo de 9,1% para o PIB brasileiro no ano.

A crise afeta mais os países onde a pandemia foi mais grave, onde há forte dependência do comércio global, do turismo, da exportação de produtos primários e de financiamento externo, caso esse no qual o Brasil se enquadra, afirma o Banco Mundial. 


Segundo Marcel Balassiano, pesquisador do FGV Ibre, o Brasil ficará na posição 171 entre 192 países em um ranking dos países que melhor atravessarão a crise. Dentre os países sul-americanos, apenas a Venezuela terá um resultado pior. “O Brasil vive uma crise de saúde e uma crise política ao mesmo tempo, isso não tem paralelo internacional.[...]” diz Balassiano. Mesmo antes da pandemia, o Brasil estava atrás da maior parte do mundo, crescendo na casa de 1% desde 2017, após duas quedas seguidas de mais de 3%. Segundo o FMI, 7 em cada 10 países cresceram mais do que o Brasil no ano passado.


Após um ciclo de medidas emergenciais para contenção da crise criada pelo coronavírus, a equipe econômica do governo está preparando uma nova fase de planejamento que contará com a melhoria do ambiente de negócios e reformas estruturais. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, um dos pontos da agenda é retirar, simplificar ou reduzir obrigações regulatórias para deixar o país mais atrativo e facilitar a retomada para empresários e investidores. Além dessa desregulamentação, o governo vai centrar esforços em mudanças como saneamento, setor elétrico, ferrovias, novo mercado de gás e independência do Banco Central. 


Com a aproximação entre o Palácio do Planalto e o Centrão, muitas dessas propostas, que estavam travadas no Congresso Nacional, estão com maiores expectativas de aprovação. Os gastos para combater os impactos do novo coronavírus levarão a dívida pública à beira de 100% do PIB, nível muito elevado para um país emergente. Apesar dos detalhes ainda não estarem fechados pela equipe do ministro Paulo Guedes, há um consenso de que a adoção de uma nova fase de medidas é essencial para a recuperação da atividade econômica. 


No âmbito social, uma “política social agressiva” para o pós-pandemia aliada a um incentivo às contratações de trabalhadores registrados estão na pauta de 2020. O Renda Brasil, programa que sucederá o Bolsa Família, ampliará a rede de assistência social com a população “invisível” aos olhos do governo e que surgiu com o cadastro do auxílio emergencial de R$600. Além disso a equipe econômica prepara uma desoneração da folha de salários com o intuito de incentivar a formalização de trabalhadores e medidas de simplificação tributária também devem ser prioridade.


Fontes:

Folha de São Paulo | Economia brasileira deve encolher 8% em 2020 e terá recuperação fraca, projeta Banco Mundial

Estadão | Condução oscilante no combate ao coronavirus deve afetar recuperação econômica

Uol | Retomada do Brasil no pós-pandemia deve ser mais lenta que em 90% dos países

Estadão | Após ciclo de medidas emergenciais equipe econômica prepara agenda de retomada